A questão sem resposta
Nossa, lembrar da palavra retrós foi como voltar no tempo. Lembro quando criança quando ia àquelas lojas de utilidades bem parecidas com uma papelaria, mas um pouco mais intimistas, chamadas de armarinho (se essas lojas existissem ainda hoje, teriam sido gourmetizadas, se chamariam Little Closet e tudo ficaria duas vezes mais caro). Lembro bem do que ia com frequência: paredes azuis, um expositor enorme que ia de um lado ao outro da sala, e por trás dele, um atendente sempre vigilante, e uma variedade enorme de produtos de escritório.
Lembro quando ia no armarinho com uma frase fixa na cabeça: “moço, me dê um retrós de linha 10 e um papel seda”, sem saber o que significava retrós, e nem que quase trinta anos depois eu iria trombar com essa palavra numa situação completamente inimaginável, e que estaria utilizando outro tipo de seda (quem viaja alto agora é nós). Essa palavra me intrigava. – “Por que retrós de linha? Por que não só tubo de linha?” Enquanto isso, pegava meu retrós (que deveria se chamar tubo), e pagava ao moço as meia hora de Super Nintendo na locadora (que convertendo pra o real, equivalia a vinte e cinco centavos). Só a título de informação, a questão do tubo permanece sem resposta pra mim.
Com o retrós na mão, estava na hora de construir as pipas. Meu pai sempre me ajudou a fazer minhas pipas, me dizia todos os detalhes, todas as teorias, os cortes da seda, todos os porquês, me orientava com atenção pra que eu fizesse o melhor possível, e o melhor vinha, sempre uma pipa que pendia pra esquerda, ou pra direita, mas voava, isso que é o melhor que eu conseguia, porque eu fazia pipas tão ruins, que quando queria brincar com elas meu pai não deixava nem eu sair de casa.
Também lembra a minha avó, aquela mesmo da máquina clássica de costura que sempre duvidava da fidelidade de minhas companheiras. Ela que me ensinou as escalas das linhas, qual era a 10, qual era a 0, e outras medidas, só nunca me disse porque era retrós e não tubo. E a questão do tubo permanece sem resposta.

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